A 1ª Consulta – Entrevista Clínica  

Numa tarde de 6ªfeira, os meus Pais foram buscar-me à escola mais cedo, dizendo que tinha de ir ao médico. Fiquei chateado, primeiro porque não me deixaram terminar o jogo de futebol, segundo porque não percebi porque tinha de ir ao médico se não me doía nada. Chegámos ao consultório e a médica mandou-nos entrar, fiquei surpreendido….uma médica sem bata?! uma sala cheia de brinquedos?! pensei que se calhar se tinham enganado, mas rapidamente percebi que não. A médica disse que era uma “pesicóloga”. Não percebi muito bem o que isso queria dizer, mas ela lá me explicou e falou comigo. Fez-me perguntas sobre os meus amigos, o que gostava de fazer, o futebol etc… eu continuei sem perceber o porquê de estar ali. Foi então, que finalmente os meus pais me disseram que eu estava ali porque me andava a “comportar mal” e eu fiquei na mesma sem perceber! Depois começaram a ler uma lista enorme de queixas, entre elas:

  • “O meu filho chora e berra muito no supermercado até conseguir o que quer.” – Pois claro, levam-me para o supermercado onde há imensas coisas apetitosas e eu não resisto a chocolates! Sei que se gritar um pouco mais, tenho a certeza que o meu pai vai morrer de vergonha e dá-me logo o chocolate.
  • “O meu filho na escola come tudo o que lhe dão no refeitório e em casa não come quase nada.” – Mas porque raio tenho de comer o que a minha mãe faz para ela e para o meu pai, se basta eu chorar um bocadinho que ela faz sempre um segundo prato para mim, ainda por cima com comida muito melhor, sem aquelas coisas verdes.
  • “Não larga o tablet, é em casa, no carro e até nos restaurantes.” – Vocês é que me deram o tablet e eu agradeço, porque era mesmo o que queria. Nós vamos aos restaurantes e eu também agradeço porque adoro comer pizza, mas vocês só sabem falar sobre o trabalho e o “estado do país”, mal abro a boca mandam-me logo calar. Já que vocês levam o tablet para o restaurante, eu aproveito, dou uso e vocês até agradecem eu estar ali caladinho, por isso não se queixem! Esta nem devia contar como mau comportamento.
  • “Por fim, o que nos trouxe aqui foi o fato de o meu filho ter sido suspenso da escola por um dia, por ter batido num menino e não se importar.” – Hey, primeiro, ninguém me ouviu quando eu disse que o João é que me bateu primeiro, só porque meti um golo na baliza da minha própria equipa, bahh fui parvo…mas ele não tinha que me bater e, tal como o meu pai está sempre a dizer: “se te baterem, tu não te ficas… dás de volta!” e foi o que fiz. E depois, eu sei que não sou mau e não tenho de me importar por ficar um dia de férias em casa, a jogar PSP.

Enquanto os meus pais faziam queixinhas, a médica ia olhando para mim, observando o meu comportamento a brincar. No final, ela disse muita coisa, falou de regras e coisas do género, mas a única frase que me ficou na cabeça foi que o problema não estava em mim, mas sim na atitude dos meus pais. Desta não estava à espera, ela não pôs as culpas em cima de mim?! Epa esta consulta não doeu nada, venham mais médicas como esta!

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A morte contada às crianças

Hoje estava mesmo a precisar de ir à minha psicóloga. Ando muito triste, nervosa e precisava de desabafar. Ela olhou logo para mim e pediu-me para sentar no tapete com ela e depois ficou calada. Só me apetecia chorar e assim foi… depois comecei a contar-lhe que há seis meses a minha avó morreu e eu não percebi porquê. Fiquei muito triste e os meus pais também. Naquele dia deixaram-me em casa da vizinha enquanto diziam que se iam “despedir” da minha avó. Bem sei que só tenho cinco anos, mas fiquei muito magoada com eles, primeiro porque não me explicaram o que era isso da morte e depois, porque não me deixaram ver a avó. No final da noite, quando chegaram a casa, o pai foi ter comigo ao quarto e disse-me que a avó tinha ido viajar e que já não voltava mais, agarrou-se a mim a chorar e assim ficámos os dois até adormecer. No outro dia de manhã, acordei muito baralhada e fui ter com a minha mãe que estava na sala sozinha. Disse-lhe que não tinha percebido o que tinha acontecido à avó e ela respondeu-me que a avó tinha ido para o céu, que estava nas estrelas e que todas as noites eu procurasse a estrela mais brilhante do céu. Quando ouvi isto fiquei ainda mais baralhada! Todos os dias à noite olho pela janela, observo as estrelas e procuro aquela que brilha mais. Devo confessar que é um pouco difícil, pois todas as estrelas são muito brilhantes, mas eu lá me esforço para encontrar. Fico a olhar para a estrela, que eu acho ser a mais brilhante e a pensar como é que, naquela coisa tão pequenina, cabe a minha avó que até era bem gordinha. Penso ainda, como é que ela foi lá parar, e rapidamente descubro que, aquilo que o meu pai disse afinal faz sentido, a minha avó chegou às estrelas de avião, só pode! Mas como é que o avião aterrou na estrela? Continuo sem perceber! Agora o que mais me preocupa é que os meus pais disseram que daqui uma semana vamos à Disneyland. No início fiquei muito entusiasmada, sempre sonhei ir à Disney! Mas ontem à noite disseram-me que íamos de avião, e eu comecei a chorar. Não quero andar de avião! E se também fico presa nas estrelas como a avó? Foi então que a minha Psicóloga me agarrou, me deu um abraço e disse: “Sabes, os pais gostam tanto, mas tanto dos filhos que não os querem ver tristes, nem a sofrer, por isso, às vezes dizem coisas que não são exatamente como acontece na realidade.” Depois foi buscar um livro. Contou-me uma história sobre animais, onde dizia que quando os nossos animais favoritos morrem, já não os voltamos a ver mais. O seu corpo vai para uma caixinha e são enterrados debaixo de terra, num local que se chama cemitério, tal como acontece com as pessoas. No final, a minha psicóloga disse que o que importa é guardar na nossa memória e no nosso coração, todos os momentos bons que passámos com a avó e relembrar o quanto ela adorava viver e brincar comigo. Saí de lá bem mais aliviada e feliz por já poder ir à Disneyland!