Porque nem todas as “Madrastas” são como a da Cinderela

Os meus pais separaram-se quando eu tinha quatro anos. Na altura, era muito pequena para entender o que se estava a passar, por isso, acho que até aceitei bem essa situação. A minha mãe tem uma profissão que a faz viajar muito e, naquela altura, eu fiquei a viver com o meu pai. Viver com o meu pai era como estar a viver num castelo encantado. Eu era a princesa dele, fazíamos tudo juntos: cozinhávamos, passeávamos, víamos televisão e muitas vezes dormíamos juntos. O meu pai era o meu herói! Durante anos, fomos só nós os dois e eu era muito feliz assim.  Quando tinha nove anos de idade, fomos ao jardim zoológico e o meu pai perguntou-me se podia levar uma amiga. Eu estranhei, pois o meu pai nunca me tinha falado em tal amiga, mas para ele não ficar triste, acenei dizendo que sim. Ela foi ter connosco à porta do jardim zoológico, era alta, magrinha, muito gira e tinha um sorriso enorme – parecia que ia matar saudades de alguém, facto este que não me agradou. Passámos o dia todo juntos e houve coisas que eu não “curti” nada: trocas de olhares; sorrisos; gargalhadas; vi-os a darem as mãos, coisa que eu não permiti e fui logo a correr para tentar separá-los. O dia terminou e finalmente chegámos a casa. Eu tentei entreter o meu pai com mil e uma coisas, para não ter de ouvir a única pergunta que eu tinha estado o tempo todo a evitar: “Então o que achaste da minha amiga?” Naquele momento pensei em muitas coisas horríveis para lhe responder, mas acabei por responder apenas: “É simpática, mas prefiro quando estamos só nós os dois.”

O tempo foi passando e para minha infelicidade, o meu pai começou a levá-la para alguns passeios que fazíamos juntos. Até que um dia, convidou-a para jantar lá em casa. Ele fez a minha comida favorita (até aí tudo bem), vestiu-se como um príncipe e o jantar até correu bem, mas depois o meu pai disse para eu me sentar no sofá porque eles tinham uma coisa para me contar (como se eu não soubesse que eles eram namorados): “Eu e a… gostamos muito um do outro e estamos a pensar viver todos juntos.” O QUÊ ?! Eu pensava que me iam contar que eram apenas namorados, não que aquela “senhora” ia viver connosco.  Naquele momento, eu respondi que não queria, fui a correr trancar-me no quarto e chorei até adormecer. No dia seguinte, o meu pai foi falar comigo e prometeu-me que nada na nossa relação ia mudar.  No fim-de-semana a seguir, ela foi lá para casa e eu não reagi muito bem. O meu pai disse que nada entre nós ia mudar, mas para mim tudo estava a mudar, tudo era bem diferente. Ao contrário das minhas amigas que tinham pais separados, eu não sentia que ela ia ocupar o lugar da minha mãe e muito menos que o meu pai estaria a trair a minha mãe, até porque eu já tinha superado a situação de separação dos meus pais e a minha mãe também já tinha um namorado. O que eu senti foi que tinha perdido toda a atenção do meu pai, ou melhor, que tinha de dividir a atenção com ela. Pior, senti ainda que o meu pai já não gostava de mim como antes e isso irritou-me muito! Durante os primeiros meses, eu fazia-me de amiga dela à frente do meu pai porque não queria que ele ficasse chateado comigo, mas quando ficávamos as duas sozinhas, eu gritava, portava-me mal e cheguei a dizer coisas que hoje, com os meus 16 anos, considero muito más: “não és minha mãe”; “não sabes nada disso porque não vivias connosco”; “tu não mandas aqui”. Eu aproveitava-me porque sabia que ela tinha medo que eu fosse dizer ao meu pai mal dela. Apesar de tudo o que eu fiz, ela manteve-se forte e não desistiu de mim, não cedeu a nenhuma das minhas chantagens, o que me espantou porque as minhas colegas faziam o mesmo com as “madrastas” e tinham tudo o que queriam. Ela era diferente, dizia não quando tinha de dizer, enfrentava-me e havia momentos em que era querida comigo. Confesso que, se não fosse namorada do meu pai, até ia gostar muito dela e esse dia eventualmente acabou por chegar. Um dia, eu vi que o meu pai estava muito triste e os dois sentaram-se comigo no sofá e disseram que iam estabelecer regras, que os dois mandavam lá em casa e que tanto ele, como ela tinham de ser respeitados, caso contrário, haveria consequências. Disseram também, que eu tinha de participar nas tarefas de casa, tinha de dormir no meu quarto, entre outras coisas. A conversa não me agradou e nos primeiros dias todas as regras foram quebradas. Como consequência, fiquei sem os passeios ao fim-de-semana, as tarefas duplicaram lá em casa e o tempo bom com o meu pai (o pouco que sobrava só para mim), fiquei sem ele. Foi aí que percebi, que mais valia estar feliz com os dois, do que ficar sozinha e triste.  Hoje em dia, somos uma família feliz e agradeço à namorada do meu pai por tudo aquilo que me ensinou e continua a ensinar, por todo o carinho que me deu, apesar de eu não ser sua filha de sangue.

Um conselho a todas as “madrastas” ou “padrastos”:

No início, é importante que façam um esforço para tentar estabelecer uma boa relação connosco, mesmo sabendo que nós não vos vamos facilitar a vida;

– Nós queremos ouvir de vocês, que não estão ali para substituir o papel/lugar da mãe ou do pai;

Antes de irem viver connosco, tentem perceber a dinâmica familiar;

Quando forem viver connosco, precisamos de ouvir que agora todos juntos somos uma família e que, aos poucos, há coisas que podem mudar;

Quando já viverem connosco, não tenham medo de impor as regras que estabeleceram em conjunto com o pai ou mãe;

– Nós precisamos de saber que vocês fazem realmente parte da família, que são figuras de autoridade e que também têm de ser respeitados. Assim, se for para repreender, façam-no, sem receio;

– Queremos sentir que também gostam de nós e não apenas dos nossos pais;

– Por fim, nós sabemos que não fomos o projeto que vocês planearam, mas não desistam só porque no início as coisas são difíceis. A culpa dessa dificuldade também é nossa e nós queremos que consigam estabelecer uma relação positiva connosco, para que haja a possibilidade de todos sermos felizes!

E já agora, no meio desta história toda, “ela” chama-se Mariana e hoje trato-a por “Madrinha”!

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Medo e Ansiedade: Crianças e Adolescentes

Cinco de outubro de 2015, já era de madrugada, quando ouvi um barulho vindo da cozinha (copos a partirem-se), levantei-me e fui a correr ver o que se passava.  Parei junto à porta quando me deparei com a minha mãe caída no chão, com um ar pálido e sem qualquer sinal de respiração. Comecei a gritar bem alto e o meu pai veio a correr, chamou uma ambulância e pediu-me para ir chamar os vizinhos. A ambulância chegou, o meu pai disse que ia com a minha mãe para o hospital e que eu tinha de dormir em casa dos vizinhos. Passei a noite toda acordado. Finalmente, às 9h da manhã, os meus pais chegaram a casa. Segundo o meu pai, estava tudo bem, tinha sido só um desmaio decorrente de uma quebra de tensão. O dia foi passado em família e foi muito divertido. Chegou a noite, eram 22.30h quando os meus pais disseram que eu tinha de ir para cama. Fui para o meu quarto, deitei-me e passado cerca de dez minutos, comecei a tremer, com falta de ar e fui a correr para o quarto dos meus pais. Depois de tudo o que aconteceu e pensando que seria uma situação excecional, os meus pais deixaram-me dormir com eles. O que eles não estavam à espera foi o que sucedeu nos dias, semanas e meses seguintes. Nos primeiros dias, eu ainda chegava a ir para o meu quarto deitar-me, mas passado cinco minutos já estava no quarto dos meus pais a chorar e a pedir para dormir com eles. Os meus pais diziam que eu já tinha onze anos, que não podia dormir no quarto deles e então um deles tentava levar-me de volta para o meu quarto, mas eu não queria… chorava, gritava a dizer que queria os dois. Chorava tão compulsivamente que eles ficavam assustados e acabavam por me deixar dormir no quarto deles. Nos dias seguintes, já ia direto para o quarto dos meus pais. Desesperados, os meus pais, recorriam a todos os argumentos para me tentarem convencer a voltar para a minha cama, mas eu sabia que se chorasse mais um bocadinho, eles iam ceder. E assim foi…dias tornaram-se em semanas, que se tornaram em meses. Um dia, eles ainda experimentaram colocar a minha cama no quarto deles, mas de nada adiantou, eu queria dormir com os dois! Assim que eu conseguia adormecer, o meu pai ia dormir para o sofá da sala ou para minha cama. Durante meses, eu dormia apenas três horas por noite e nem os comprimidos para dormir que o médico receitou, faziam efeito. Após seis meses nesta situação e já desesperados, os meus pais resolveram levar-me a uma consulta de psicologia.

Uma das coisas que fizemos foi desenhar um círculo, que representava um ciclo com o pensamento, a emoção e o comportamento. Depois da minha psicóloga me explicar como funcionava o ciclo, tentámos em conjunto analisar a minha situação segundo essas três variáveis:

  • Pensamento: No momento que antecedia a minha ida para a cama, eram muitos os pensamentos que me ocorriam, alguns através de imagens: “Os meus pais vão morrer enquanto eu estou a dormir.”; “Um ladrão vai assaltar a nossa casa e matar-nos.”; “Eu posso morrer enquanto estou a dormir.” Estes pensamentos e muitos outros que escrevi numa folha, fizeram-me perceber que o meu medo não era o de dormir sozinho, era outro muito maior e muito mais assustador. Segundo a minha psicóloga, estas “crenças” ativavam todo um conjunto de emoções e sensações corporais.
  • Emoção: Este medo desproporcionado e fora do controlo gerava em mim uma resposta emocional – ansiedade e às vezes pânico – que eram traduzidas em sensações corporais:  palpitações, dificuldades em respirar, insónias e choro compulsivo. Tudo isto por sua vez, gerava uma resposta comportamental.
  • Comportamento: Correr para a cama dos meus pais e agarrar-me a eles, evitar dormir no meu quarto.

Tudo isto foi muito difícil para mim, porque eu estava tão perturbado e descontrolado que não conseguia prestar atenção ao que me passava pela cabeça. Em conjunto com a minha psicóloga chegámos à conclusão, que a reação dos meus pais à situação, apenas reforçava as minhas crenças de que: “Eu precisava dos meus pais ao meu lado para conseguir dormir. ”; “Sem eles ao meu lado, algo de mau podia acontecer”. Sem querer, todas as noites que os meus pais cediam e me deixavam dormir no quarto deles, iam alimentando em mim a confiança de que bastava eu chorar um pouco, para me deixarem dormir com eles e assim o meu medo ia crescendo. Eu era um rapaz de onze anos de volta à cama dos pais, sem qualquer hipótese de voltar para o meu quarto porque isso era demasiado devastador para mim e eu não ia aguentar perder os meus pais, pelo menos era assim que eu pensava.

Todo o trabalho com a psicóloga passava por conseguir analisar, perceber e mudar essas crenças disfuncionais, aprender técnicas de relaxamento e gradualmente estabelecer objetivos de mudança de comportamento.

A minha psicóloga transmitiu-me a confiança de que eu, com a sua ajuda, iria conseguir superar tudo isto. E a sua certeza, tornou-se a minha força! Eu não queria mais continuar a viver em função de um medo que condicionava o meu sono, a minha energia, a minha vida e a dos meus pais, e sobretudo a minha felicidade.

Da separação à alienação parental!

Numa tarde de domingo, tinha eu dez anos, quando a minha mãe se sentou ao meu lado no sofá da sala e começou a chorar, para me tentar contar que o meu pai ia sair de casa e eles se iam separar. Perante aquela informação, passaram-me muitas perguntas pela cabeça, mas fiquei calado pois a minha mãe não parava de chorar e senti-me na obrigação de tomar conta dela, abraçá-la e dizer que ia ficar tudo bem. Mas não ia…! Que eles se iam separar não era novidade para mim, eu ouvia-os a discutir no quarto há meses e meses, com insultos e ameaças de separação. Depois de processar a informação que a minha mãe me tinha acabado de dar, primeiro, fiquei chateado pelo facto do meu pai não estar presente e não ter tido coragem para falar comigo sobre isso. Segundo, o que realmente eu queria saber e ouvir era: “se fui eu o culpado? ”; “o pai deixou de gostar de nós?”; “como iria ser a minha vida daí em diante ?”. As respostas a todas estas perguntas apareceram, gradualmente, muito mais tarde e não da melhor forma possível.

Aquilo que pensava ser um tormento de discussões que naquele dia teria terminado, era apenas uma ilusão porque a partir daí foi muito pior! No início, pequenas atitudes inconscientes, da parte da minha mãe, denunciavam o decorrer deste filme de terror. Atitudes como: no momento de ir para casa do meu pai, a minha mãe ficava agarrada a mim durante imenso tempo e dizia que se eu quisesse, ela ia buscar-me a casa do pai. Sem ser propositado, era como se a minha mãe estivesse a dizer que o meu pai não conseguia tomar conta de mim e que eu não ia gostar de estar com ele. Quando eu voltava da casa do meu pai, a minha mãe fazia-me muitas perguntas e todas as respostas que eu dava, ela contra-argumentava: “já vi que gostas mais de estar com o teu pai”. Estas pequenas atitudes, muitas vezes, inconscientes por parte da minha mãe, foram tomando proporções desmedidas.  As discussões pelo telefone aumentaram de tom, os insultos eram cada vez piores e agora já era sobre mim, tudo na minha vida servia de desculpa para eles discutirem, ainda mais do que antes da separação. Durante cerca de um ano, ouvia a minha mãe chorar, ouvia a minha mãe pronunciar frases do género: “o teu pai não quer saber de nós”; “o teu pai não paga nada, sou eu que pago tudo!”; “ele não quer saber de ti, só da namorada nova”; “o teu pai não gosta de ti e por isso destruiu a nossa família”. Frases como estas e outras bem piores repetiam-se vezes sem conta na minha cabeça.

À medida que o tempo foi passando fui construindo uma ideia totalmente errada e deturpada do meu pai. Não queria estar com o meu pai com medo de trair a minha mãe. Eu estava muito triste e confuso porque toda aquela informação negativa sobre o meu pai não correspondia à minha realidade. Nos primeiros tempos que estive sozinho com o meu pai aos fins-de-semana, eu adorei: passeámos muito, ele fazia-me rir e estava sempre bem disposto. Era uma sensação tão boa, que às vezes não queria voltar para casa, desejava ficar mais tempo com o meu pai. Este sentimento contrastava com toda a informação negativa da minha mãe. Eu simplesmente era criança e não percebia o que a minha mãe, por vezes também inconscientemente, me estava a fazer, a mim e a ela própria. Eu vivi aquela tristeza com a minha mãe, como se o meu pai se tivesse separado de mim também, como se o meu pai me tivesse trocado. Chorei com a minha mãe, dormi com a minha mãe muitas noites para a acalmar, por fim assumi o papel de pai e tomei conta dela.

Ao final de um ano, a angústia apoderou-se de mim. Com esta ambivalência de pensamentos e sentimentos comecei a baixar as notas. Não tinha irmãos com quem compartilhar a minha dor, tinha medo de cães por isso não havia companhia animal e tinha acabado de mudar para uma escola nova onde ainda não tinha amigos porque passava os intervalos sozinho a pensar em inúmeras coisas horríveis sobre mim e sobre a vida. Por fim, chegou o dia em que a minha mãe me levou a uma Psicóloga, que depois de avaliar o meu estado emocional resultante, segundo ela, de uma possível alienação parental, falou com a minha mãe.  A minha Psicóloga deu uma oportunidade à minha mãe para mudar a sua atitude e me colocar de novo em contacto com o meu pai. Foi um percurso longo, até tudo voltar a acalmar. Hoje tenho 18 anos e deixo vários conselhos a todos os pais que se estejam a pensar separar:

No momento de separação:

  • É importante que sejam os dois a falar;
  • Nós não queremos saber com pormenor o motivo da separação. Precisamos, isso sim, de informação reduzida e simplificada;
  • Queremos saber se fomos ou não os culpados;
  • Precisamos de ouvir que a separação é definitiva e vocês já não vão voltar mais a estar juntos;
  • Queremos ouvir que apesar de vocês se irem separar um do outro, não se vão separar de nós e vão continuar a gostar de nós;
  • Precisamos muito de saber como vai ser a nossa vida daí para frente: o que vai mudar?; quanto tempo vou passar com o pai?; como vão ser as férias e os aniversários?;
  • Por último: queremos que estejam disponíveis para esclarecer qualquer dúvida que ainda possamos ter.

Após a separação:

  • Guardem para vocês todas as coisas más que pensam um sobre o outro. Para sermos felizes precisamos de construir uma imagem positiva dos dois;
  • Quando falarem mal um do outro, com alguém ou ao telefone, tentem garantir que nós realmente não estamos ou não conseguimos ouvir;
  • Não queremos servir de “espiões” da vida de cada um de vocês e por isso dispensamos perguntas detalhadas sobre o que fizemos em casa de cada um;
  • Tudo o que está relacionado com o dinheiro, entendam-se! Quando somos pequenos, nós não precisamos saber se o pai ou mãe não pagam o que devem;
  • Nós compreendemos a vossa dor e até vos podemos ajudar nas tarefas de casa, mas vocês já são grandes para tomarem conta de vocês próprios emocionalmente, não precisamos de viver a vossa tristeza. Temos o direito de viver a nossa própria tristeza e também, precisamos de tempo para nos adaptarmos a esta nova situação;
  • Por fim, quando tiverem outra pessoa na vossa vida – namorada(o), antes de nos apresentarem, tenham a certeza de que há uma forte possibilidade de dar certo. Não precisamos de conhecer todos os vossos namorados(as) porque: não vamos querer dar confiança a uma pessoa que não sabemos se vai ou não desaparecer da nossa vida; deixamos de confiar em vocês; e sobretudo, porque deixamos de acreditar no amor!

 

Perturbação do Espectro do Autismo (Critérios do DSM-5): Segundo a perspetiva de um adolescente com autismo

 

Aos quatro anos fui diagnosticado com perturbação do espectro do autismo. A partir desse dia a minha vida mudou e passei a viver em função de uma rotina repleta de terapias. Hoje tenho 16 anos e a única terapia que mantenho é a psicologia. Segundo a minha psicóloga, a minha perturbação é uma perturbação do neurodesenvolvimento caracterizada, segundo os critérios clínicos (DSM-5), por um modelo de dois domínios que engloba: défices na comunicação e interação social e, padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades. Com ajuda da minha psicóloga analiso, de seguida, se me enquadro nestas características:

  1. Défices persistentes na comunicação e interação social:
  • Défices na comunicação não verbal usada na interação social

Comunicar e interagir socialmente com outras pessoas, desde sempre, me causa uma grande ansiedade. Para mim, é muito difícil perceber e responder de forma adequada às outras pessoas. Estar a olhar para uma pessoa a falar é insuportável, porque ao mesmo tempo que a pessoa está a dizer algo, com flutuações no tom de voz e pausas no discurso que não entendo, também está a fazer mil e uma expressões com a cara e com as mãos. É como se todas estas imagens diferentes entrassem, ao mesmo tempo, no meu cérebro e eu não conseguisse descodificar, acabando por não prestar atenção àquilo que a pessoa disse. Assim, quando as pessoas falam para mim, eu desvio o olhar para outro sitio e tento concentrar-me somente no que a pessoa está a dizer. A minha psicóloga ensinou-me a interpretar todo um conjunto de expressões faciais das pessoas. Disse, que se uma pessoa levantar a sobrancelha isso pode querer dizer: “Acabaste de dizer um grande disparate”; “És muito giro, queres sair comigo?”; “Não percebi nada do que disseste”. Quando ela me disse isto pensei, como é que as pessoas interpretam tudo isso sobre uma mera sobrancelha, que para mim é apenas um aglomerado de pêlos que serve para proteger os olhos.

  • Défices no desenvolvimento e manutenção de relacionamentos apropriados à idade

No outro dia um professor disse-me: “tens de dar o braço a torcer”. Fiquei completamente chocado! Como é que ele teve a coragem de dizer aquilo? Porque motivo haveria ele de querer que eu lhe desse o meu braço para ele torcer? Só esta imagem fez-me entrar em pânico. Quando cheguei à psicóloga, ela explicou-me que as pessoas falam muito por expressões idiomáticas: ” tive um dia de cão”; ”dar o braço a torcer”; ”dar com a língua nos dentes”; “estar com a pulga atrás da orelha”. Quando tento visualizar esta última frase na minha cabeça, só me confunde, porque imaginar uma pulga –  sifonáptero da ordem dos insetos sem asas, que se alimenta do sangue de mamíferos – atrás de uma orelha, nada tem a ver com o significado que as pessoas atribuem de “estar desconfiado”. Para além destas expressões, há também as metáforas e a ironia que são ainda mais difíceis de compreender e dar resposta.

  • Défices na reciprocidade socio-emocional

Tal como disse anteriormente, interpretar expressões faciais, perceber os estados emocionais da pessoa e retribuir com um simples “estás bem?” ou um simples abraço de conforto, é muito complexo.  Para mim, dar abraços e beijinhos é constrangedor, porque não consigo atribuir isso a uma sensação agradável. Contudo, nós nunca negamos o afeto e alguns dos meus amigos com esta perturbação apresentam até, uma fixação pelo cheiro (perfume), pelo tocar na cara de pessoas que lhes são familiares, procurando o contacto físico e querendo dar e receber carinho constantemente.

2. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades:

  • Adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamentos

O meu dia a dia já o memorizei, tenho as mesmas rotinas há anos, porque me acalma saber o que vai acontecer a seguir e eu consigo antecipar e controlar a minha vida. Se algo muda na minha rotina, fico muito nervoso. Quando era pequeno, sempre que havia uma mudança, eu berrava, guinchava e às vezes tornava-me agressivo. Com a minha psicóloga, aprendi a controlar-me e agora, apesar de ainda ficar nervoso com a mudança, já consigo dizer o que me incomoda, respirar para me acalmar e distrair-me com outra coisa para reduzir a ansiedade.

  • Movimentos motores, uso de objetos ou fala estereotipados ou repetitivos

Desde que me lembro, faço movimentos intencionais repetitivos – estereotipias – que passam por abanar as mãos (flapping), balançar o corpo, alinhar objetos segundo um padrão de cores. Normalmente faço isto quando estou muito entusiasmado, ou quando estou entediado. Eu sei que estes movimentos são esquisitos e inadequados, e que as outras pessoas acham muito estranho, mas para mim é muito difícil controlar isto. É como se fosse uma descarga do meu corpo que eu nem sempre controlo. É como se o meu corpo me estivesse a obrigar a fazer isso.

  • Interesses altamente restritos e fixos, na intensidade ou foco

Quando era pequenino a minha mãe dizia que eu vivia obcecado com os números, memorizava uma sequência enorme de números primos e debitava a sequência, vezes sem conta. À medida que fui crescendo os meus interesses foram variando, já memorizei os nomes e as características dos mais variados animais, e atualmente interesso-me por memorizar datas de factos da história de Portugal.

  • Hiper ou hiporeactividade a estímulos sensoriais

A minha perturbação implica alterações senso-percetivas, o que significa que há pessoas com esta perturbação que podem ter hiper ou hiporeactividade a determinados estímulos sensoriais. Estar no recreio ou a num centro comercial é um tormento: o cheiro, as luzes, o barulho dos saltos altos, as pessoas a falarem, todas estas perceções entram de uma só vez nos meus ouvidos, com o mesmo nível de intensidade, fazendo com que eu nem as consiga diferenciar. Estas sensações são de tal maneira fortes que não me consigo concentrar em mais nada.

A par destes dois grandes domínios que caracterizam esta perturbação, podem surgir outras características, as mais comuns são: défices intelectuais (a grande maioria de nós não tem capacidades de “génio”), défices na linguagem (expressiva ou recetiva), dificuldades ao nível da atenção e problemas de ansiedade.

É importante referir que não existem duas pessoas que estejam exatamente no mesmo ponto do espectro, não existem duas pessoas que sejam afetadas exatamente da mesma forma por esta alteração do neurodesenvolvimento.

Por fim, enganam-se as pessoas que pensam que não percebemos o que se passa à nossa volta.  O facto de interagirmos pouco ou parecer que estamos mais distantes não quer, de todo, significar que estamos ausentes!

T.P.C. no 1º ciclo ?

Hoje é quarta-feira, dia de ir à psicóloga. Para mim é mais um dia em que chego a casa às 20h, mais um dia em que tenho quatro páginas de trabalhos de casa para fazer, sem saber se os vou conseguir fazer e com medo de levar mais um recado na caderneta. Sinto-me triste e irritado porque até me esforço para tirar boas notas, mas cada vez que chego a casa estou tão cansado que já nem consigo pensar direito. Muitas vezes não percebo o exercício e acabo por pedir ajuda à minha mãe, que depois de olhar e ficar a pensar sobre o que lá está escrito, responde que não me consegue ajudar porque não percebe como se ensina a matemática de hoje em dia. Nesta altura, penso: “como faço isto?”. Já frustrado por não perceber, passam-me duas coisas pela cabeça: invento uns números para fingir que fiz as contas ou deixo os exercícios em branco. Acabo por escolher a primeira opção.

Hoje estou então, nervoso e com medo de não conseguir fazer os trabalhos todos, mas principalmente de não os conseguir fazer bem. Quando dou por mim tinha acabado de contar tudo isto à minha psicóloga, à frente dos meus pais que ficaram espantados a olhar para mim.

A minha psicóloga esteve a contar as horas que passo na escola e chegou à conclusão que passo cerca de nove horas por dia na escola. Cinco dias por semana dá um total de quarenta e cinco horas por semana. Ela disse que até compreendia que fosse importante e necessário fazer os trabalhos de casa, que servem para consolidar os conteúdos dados na aula, para desenvolver a memória de trabalho (ou lá o que isso quer dizer), esclarecer dúvidas e trabalhar a autonomia. Depois, ela disse aos meus pais que ia falar com a minha professora e colocar-lhe algumas questões importantes (vou tentar escrever tal e qual como a minha psicóloga disse):

  • “Como é que às 20h da noite uma criança consegue ter disponibilidade mental, disposição ou capacidades (e.g. raciocínio, memória, atenção/concentração) para consolidar algum conhecimento dado na aula? “
  • “A realidade é que os trabalhos para casa que a maioria dos professores manda, são as fichas do livro que as crianças estiveram a fazer todo o dia na sala de aula. Não podem as crianças fazer essas fichas no dia seguinte?”
  • “Os professores não podiam apenas escolher um dia por semana para mandar umas atividades relacionadas com a matéria dada, e depois no fim-de-semana enviavam então as ditas “fichas” ?”
  • ”É um facto que a maioria dos pais não consegue ajudar os filhos com os trabalhos de casa, ou porque não têm tempo e estão cansados, ou já não se lembram, ou porque a maneira de ensinar e até os conteúdos das disciplinas de português e matemática são diferentes da forma como eles aprenderam. Vão os pais constantemente à escola pedir explicações da matéria à professora para depois poderem ajudar os filhos em casa?”
  • Ela ainda disse que ia colocar um desafio aos professores da minha escola: “Fica a questão de saber, se os professores estão dispostos a cumprir os desafios que esta nova realidade (carga horária) impõe para alcançar o sucesso escolar dos alunos. Se conseguem transformar as horas em que os alunos estão na escola, em horas de verdadeira aprendizagem e motivação, de forma a que não seja necessário tanto trabalho extra de segunda a sexta-feira. Pelo menos, só enquanto as crianças ainda estão no primeiro ciclo e só têm entre a seis a nove anos de idade.”

No fim, perguntou o que eu achava. Fiquei de boca aberta com tantas horas que passava na escola, nem fazia ideia…com tantas perguntas que ela ia dizendo aos meus pais, até me baralhei. Fiquei um pouco confuso, mas lembro-me de lhe ter perguntado se podia acrescentar mais uma pergunta. A minha pergunta é simples: Nesta vida de adulto, quando tenho tempo para ser criança?”

O meu filho tem um amigo imaginário!

Estava eu no meu quarto quando começei a ouvir gritos vindos da sala, de novo… outra discussão. É quase sempre nestas alturas que ele aparece, o meu irmão e meu melhor amigo – o Zé. Brincamos à luta de almofadas, aos super-heróis para salvar o mundo na luta contra os maus, também falamos muito e ele faz-me rir, conta piadas e eu também lhe conto as anedotas que o pai me ensinou. Nessa noite estava eu prestes a derrotá-lo na batalha final com a minha espada azul quando, de repente, o meu pai entrou no quarto e me ouviu a brincar com o Zé e disse aos berros: “Vês, o teu filho é maluco, está sempre a falar sozinho! Pára com isso, amanhã vais ao médico dos malucos!” Bateu a porta do meu quarto com força e saiu. De um momento para o outro o Zé desapareceu, eu senti o corpo todo a tremer com medo, deitei-me na cama, começei a chorar e pensei para mim, “teu filho”? mas eu também sou filho dele. O meu pai fica sempre muito irritado quando me ouve a falar com o Zé. Para dizer a verdade, eu sei que na realidade o Zé não existe, mas enquanto estou naquela luta de almofadas ou dos super-heróis, não oiço as coisas horríveis que os meus pais dizem um ao outro e não imagino a possibilidade dos meus pais se separarem.

Hoje à tarde fomos à “pesicóloga”, o meu pai chama-lhe a “médica dos malucos”. Eu estava com muito medo de ser maluco, do que iria acontecer se realmente fosse, se o meu pai iria deixar de gostar de mim. Entrámos na sala e os meus pais estiveram a contar o que aconteceu, enquanto ela também me ia fazendo perguntas. No final, lembro-me que a “pesicóloga” disse que na minha idade (cinco anos), ter um amigo imaginário era comum, havia muitas crianças que também tinham um amigo imaginário. Continuou a dizer que era normal e que servia como conforto emocional, ou lá o que isso queria significar e que os estudos científicos referiam que ter um amigo imaginário até estimulava a criatividade e o desenvolvimento emocional e social das crianças. Pensei: “Estudos? Como é alguém estuda sobre isto?! Não têm mais nada para fazer, se não estudar o Zé? Que seca!” O mais importante é que ela disse que eu não era nenhum maluco até porque tinha noção de que o Zé não era real. Toma lá pai, BUMMM! Não sou maluco! Fiquei tão aliviado quando ela disse aquilo, fogo, estava a ver que não me safava desta, sou normal! De repente, oiço um “mas”, acompanhado de: “seria aconselhável o acompanhamento por motivos de uma possível instabilidade emocional, bem como vocês enquanto casal beneficiariam de alguém que os orientasse numa terapia de casal”, o que traduzido pelos meus pais significa que tanto eles, como eu precisávamos de ir à “pesicóloga”. Pensei: Hã? Bolas, ela tinha acabado de dizer que eu não era maluco e agora preciso de ir à “pesicóloga”? Foi então que a “pesicóloga” me explicou que os meninos que iam à psicóloga não eram malucos, apenas tinham alguns problemas, tal como os adultos, e que a psicóloga os ajudava a conseguir resolver, para serem mais felizes. Mais importante ainda, ela disse que queria conhecer o Zé e brincar connosco. Fiquei espantado. No final, isto até foi fixe, fiquei a saber que não sou maluco e mais, que os meus pais também precisam de uma ajudinha da “pesicóloga” para ver se resolvem as cenas entre eles, só isso já valeu a pena!

Beijos na boca! Porquê Mãe?

Hoje chateei-me com a minha mãe, logo de manhã. Fico fula quando ela me faz isto, grrr!

Desde pequenos que a minha mãe tem a péssima mania de dar beijos na boca a mim e ao meu irmão. Não sei porque raio é que ela faz isso! Questiono-me se viu alguma telenovela onde faziam isso, se está na moda ou se simplesmente um dia caiu da cama, bateu com a cabeça e passou a fazer isso? Quando éramos pequenos até achávamos piada. Eu achava carinhoso e via a minha mãe como a minha melhor amiga. Quando chegava à escola tentava fazer o mesmo com todos os meus colegas, mas eles estavam sempre a fugir de mim…hoje ridiculamente percebo porquê, ninguém quer uma tarada atrás de si!  O meu irmão foi sempre o que mais gostou dos beijos na boca da minha mãe. Fingia que a mãe era a sua namorada e a fantasia dele tornava-se realidade. O pai dava beijos na boca à mãe e o meu irmão ia logo a correr para dar também, agarrava-se à minha mãe como um macaco encastrado na fêmea, numa competição desenfreada entre ele e o pai para disputarem quem ficava com mãe. Muitas das vezes com alguns empurrões e nomes feios do meu irmão para o meu pai, o que consequentemente fazia com que os meus pais acabassem por discutir…e eu era como que uma sombra que passava despercebida no meio de toda aquela “brincadeira” maluca.

Tal como eu disse, tudo isto era muito engraçado quando éramos crianças, mas eu agora já tenho 12 anos, sou uma pré-adolescente…interessada no rapaz mais giro da escola. E o que é que a minha mãe tem a ver com isso? Perguntam vocês. Pois bem, hoje de manhã quando a minha mãe me foi deixar à escola, todos os meus amigos estavam à porta, inclusive o Rodrigo (o tal…). Eu saio do carro a correr para não ter hipótese de me despedir da minha mãe, mas ela não sei como, saiu do carro ainda mais rápido do que eu, foi ter comigo, abraçou-me e deu-me um beijo rápido na boca…NÃO!!! Todos olharam, logo de seguida gozaram comigo e ainda me chamaram de “lésbica”. Tudo isto à frente do Rodrigo…foi a maior humilhação da minha vida!  Passei o dia todo a tentar gerir as minhas emoções e pensar como pôr fim a este hábito ridículo, como falar com a minha mãe?